As ciclovias, as faixas exclusivas e as sacolinhas plásticas

Normalmente, quem reclama tem muito mais furor e entusiasmo em protestar do que quem está satisfeito e aprovando.

Quem se sente incomodado com uma mudança sempre se expressa, grita e se agrupa com muito mais facilidade do que quem gostou da mudança e apenas quer usufruir e utilizá-la.

Mas esse comportamento é arriscado! Mostrar apoio ao que você aprova as vezes se torna muito importante.

Um exemplo desta necessidade se deu há 4 anos, quando o prefeito Gilberto Kassab promulgou uma Lei Municipal, criada em conjunto com a Comissão de Educação, Cultura e Esportes, que proibia o uso de sacolas plásticas na cidade.

A Lei, que não era a única do país, e seguia uma tendência mundial de racionalização do uso de derivados plásticos, tinha apoio de parte da população que já usava e continua usando sacolas retornáveis e outras alternativas. Porém, a proibição incomodou muita gente acostumada com o uso cotidiano das sacolas plásticas, e estes começaram a criticar publicamente a lei e se mobilizaram contra ela.

Além da mobilização dos empresários do setor, as críticas à mudança dominaram a mídia encabeçadas por pessoas demonstrando enorme dificuldade em se adaptar às mudanças e adotar novos hábitos. Mudar dá trabalho. No entanto, poucas pessoas a favor se mobilizaram, e no final a mobilização contrária pareceu unânime e a lei foi suspensa.

Situação semelhante tem ocorrido com as faixas de ônibus e ciclovias em São Paulo. O atual prefeito tem atendido demandas antigas de transporte coletivo e ciclovias, incomodando muita gente relutante em se adaptar à mudança. E essas pessoas têm se mobilizado e criticado as ações implantadas.

É curioso também ressaltar que as pessoas que apoiam as ações muitas vezes são taxadas de “governistas” ou “chapa-branca”, embora muitas vezes já apoiassem essas ações antes de determinado governo começar a implantação. O caso recente é marcante, embora em partidos opostos, a defesa pelo fim das sacolinhas plásticas e por modos ativos de mobilidade tem bastante grupos em comum.

Sobre isso, o Instituto de Energia e Meio Ambiente discutiu em um artigo sobre o desestímulo do uso dos carros  a dificuldade das pessoas beneficiadas por ações difusas como estas se mobilizarem em prol destas melhorias, enquanto os opositores, incomodados pontualmente e muitas vezes com maior poder de pressão social, se agrupam e agem com muito mais facilidade.

Com todo respeito às opiniões contrárias, o caso das sacolinhas plásticas em 2011 mostrou a importância e a necessidade das pessoas que apoiam uma causa que já está sendo atendida, se mobilizarem e apoiarem continuamente a implementação. Não se deve deixar as opiniões contrárias serem as únicas a serem ouvidas! Abaixo-assinados, audiências públicas, conselhos, secretarias, ouvidorias, câmara, prefeitura, enfim, é necessário se fazer ouvir nestas instâncias – e na mídia.

Afinal, queremos corrigir os problemas da nossa sociedade ou preferimos continuar a nossa vida confortável do jeito que está?

A poluição não ira diminuir se não dermos um tratamento correto e planejado para nosso lixo e diminuirmos o uso de materiais descartáveis. E no caso do trânsito, os congestionamentos não irão melhorar se não diminuirmos o uso excessivo do carro, pelo menos no dia-a-dia.

Nestes casos a questão é simples assim, não dá para ter os dois!

Anúncios

O desespero de não conseguir viver sem carro e as críticas simplistas às ciclovias

A oposição à implementação de ciclovias não é exclusividade nem do Brasil nem da nossa geração. Não vou ficar me prolongando nisto, pois não é o objetivo do texto, mas já desde a década de 1930 quando se começou a disseminação da ideologia da fluidez para os carros, com vias rápidas, surgiu a necessidade de se remover qualquer coisa que atrapalhasse a circulação dos carros das ruas.

Os movimentos visando devolver as ruas aos pedestres, ciclistas e outros modais só se intensificou a partir dos anos 1970, e os motoristas que estavam acostumados a ter exclusividade de circulação nas vias sempre reagiram fortemente contra este movimento. Este interessante texto em inglês relata muito bem este histórico no Reino Unido.

Recentemente em São Paulo tivemos resistência até para os 80km de ciclofaixas de lazer, que funcionam apenas aos domingos, implementados na gestão do Kassab! Era de se esperar que houvesse resistência a um plano de 400km de ciclovias definitivas.

A reação desesperada de alguns setores da sociedade mostrou o comodismo e a falta de visão de algumas pessoas, acostumadas ao uso das vias apenas pelos automóveis e que tratam essa visão como ‘natural’, óbvia ou como única possibilidade.

Além disso, Reinaldo Azevedo, Aloysio Nunes, a lojista das milionárias, a professora da PUC e os poucos moradores de Higienópolis que se posicionaram contra as ciclovias demonstram colossal desinformação ao pensar que as ciclovias são ideias do prefeito Haddad, que as ciclovias não são meios de transporte, que os pedestres não são bem vindos nas ciclovias, que não há demanda por bicicleta em São Paulo, que o planejamento das ciclovias deve ter o intuito de não atrapalhar os carros e até que as ciclovias em vermelho são invenções do PT.

Muitas destas respostas já foram dadas em textos como este da Marjorie Rodrigues, nesta seleção de perguntas e respostas da folha, nesta reportagem André Trigueiro, e até com humor com o Tumbrl Ciclofaixa das Milionárias. Mas, neste texto, quero me focar no argumento que aparenta ser o mais “técnico” das pessoas que dizem “se opor a ciclovia da maneira como estão sendo feitas, sem planejamento”, como se o objetivo do planejamento fosse não atrapalhar a circulação e o estacionamento dos carros.

A CET, órgão que planeja as ciclovias, deixou claro que o objetivo do planejamento é oferecer segurança e conforto ao ciclista, com o mínimo de impacto na circulação de veículos e retirando vagas de veículos. Haverá impacto sim para os carros, pois a área da rua e limitada, e deve ser melhor distribuída. Apenas a retirada das vagas vem causando a reação que estamos assistindo, demonstrando que as pessoas não tem a visão de que as vagas na rua não são delas, não são do estabelecimento, são públicas, e principalmente, que os carros que estavam parados serão substituídos por pessoas usando outros meios de transporte que também podem ser clientes, como o vereador da oposição, Ricardo Young salientou na Câmara Municipal.

Por outro lado, assim como com as faixas exclusivas de ônibus, a rápida velocidade de implementação também parece atormentar o comodismo tradicional dos usuários de carro.

Este comodismo e a falta de visão parecem ser a principal barreira para as pessoas entenderem e aceitarem as mudanças que precisam ocorrer. O sistema baseado no transporte individual mostra continuamente seu esgotamento, e a variedade de modais precisa aumentar, não só para beneficiar os usuários destes novos modais, como também as pessoas que necessitam utilizar o carro e que seriam favorecidas com a diminuição dos congestionamentos. Mas infelizmente muitas destas pessoas não parecem dispostas a enxergar e aceitar estas mudanças.