“BLOG PONTO DE ÔNIBUS: FAIXAS DE ÔNIBUS E A VOZ DA MINORIA”

Publicado originalmente em: Blog do Ponto de Ônibus, em 07/04/2014, por Ádamo Bazani

Grupos protestam contra espaços exclusivos para o transporte coletivo e vão na contramão do que se espera no espaço urbano das cidades

Em junho de 2013, o Brasil assistiu uma série de manifestações populares contra os valores das tarifas de transporte público e pela melhoria nos serviços de mobilidade.
Esses objetivos só podem ser alcançados caso os transportes coletivos ganhem eficiência operacional, ou seja, velocidade comercial e readequação das linhas para a realidade da cada região.
Para que tal eficiência e velocidade venham se tornar uma realidade, o transporte coletivo deve ter prioridade no espaço urbano.
E, na época, muitos manifestantes tiveram consciência destes fatos e começaram a defender a prioridade ao transporte coletivo, assunto que ganhou mais força com os atos do ano passado.
Mas o discurso em prol da mobilidade urbana, muito bonito por sinal, parece que só vale até as mudanças no viário para esta melhoria baterem à porta de casa e, principalmente, do estabelecimento comercial.
Agora, as manifestações em São Paulo mudaram radicalmente de cara e são contra as faixas e corredores para ônibus.
Já foi mais que provado que o transporte público é uma maneira inteligente de usar o espaço na cidade. Um ônibus comum ocupa o lugar de quatro carros, mas transporta o equivalente ao que 80 veículos de passeio transportariam.
Todos sabem disso e não precisa ser nenhum especialista em mobilidade para saber que o ônibus economiza espaço e polui bem menos que a grande quantidade de carros.
Mas falta pensamento coletivo.
Não adianta a sociedade pedir transporte coletivo de qualidade e ao mesmo tempo, parte dela impedir que isso seja oferecido à população.
Nesta e na semana passada, a zona Sul e a região central de São Paulo têm sido palcos de protestos, uma minoria barulhenta, que reclama das faixas de ônibus em regiões como da Avenida Lins de Vasconcelos e da Avenida Lacerda Franco.
São comerciantes que dizem que as faixas de ônibus prejudicaram seus negócios já que dificultam o estacionamento dos carros de seus clientes nas ruas.
Claro que estes comerciantes devem ser ouvidos e a prefeitura buscar soluções que não os prejudique sem, no entanto, afetar a maioria que são os passageiros de ônibus.
Mas vale ressaltar que em diversas cidades do mundo, independentemente de faixas e corredores de ônibus, a restrição ao estacionamento nas vias públicas é uma alternativa de mobilidade.
Além disso, não parece que uma faixa que opera só nos horários de pico, das 6h às 9h e das 16h às 20h, os intervalos de operação mais comuns em São Paulo, possam atrapalhar estabelecimentos comerciais que funcionam, em sua maioria, das 9h às 18h.
A verdade é que a população está acostumada ao comodismo e há muita individualismo ainda na cultura do cidadão. Ele defende o bem estar da maioria, mas só se ele for parte desta maioria.
A faixa para ônibus é sim uma solução, não a única, é claro, para que os transportes públicos em São Paulo e na região metropolitana melhorem.
Por isso, este debate não se restringe apenas à cidade de São Paulo. Cidades médias também registram queixas de comerciantes contra as faixas e restrição de estacionamento. Exemplo é a Rua Carijós, em Santo André, no ABC Paulista, importante corredor de linhas municipais e intermunicipais de ônibus.
O engenheiro e especialista em mobilidade urbana Horácio Augusto Figueira, professor da USP – Universidade de São Paulo, prova em números que uma faixa de ônibus beneficia uma população maior que todos os carros que circulam pelas outras faixas na mesma via.
Ele tomou como base vias como Avenida Paulista, Avenida Rebouças e Avenida Brigadeiro Faria Lima.
Nestas vias, por hora passam aproximadamente 700 carros de passeio. Como em média na cidade de São Paulo um carro leva 1,4 pessoa, em cada faixa, passariam por hora 980 pessoas. Como estas avenidas têm três faixas, por hora passam nelas 2 mil 940 pessoas.
Já um ônibus, em média na cidade de São Paulo, leva 50 pessoas (considerando os momentos da viagem que ele está mais vazio e os momentos que atua com lotação máxima).
Por hora, circulam em avenidas deste porte 80 ônibus, atendendo em uma única faixa 4 mil pessoas, número superior às 2 mil 940 pessoas nos carros em três faixas.
O professor ainda mostra que retirando uma faixa para o carro, a utilidade da via se torna maior.
Numa conta direta, se em vez de três faixas, os carros contassem com duas, na mesma hora, a mesma quantidade de veículos de passeio transportaria 2 mil 240 pessoas. Se uma faixa continuasse a ser dedicada para os ônibus, somando as faixas para os carros e a destinada ao transporte coletivo, passariam por esta via, 6 mil 240 pessoas. Isso significa mais que o dobro das 2 mil 940 se as três faixas fossem só para os carros.
Comerciantes também se queixam das desapropriações que podem ser geradas pelos corredores de ônibus que atendem mais pessoas ainda. Dependendo do corredor, podem ser beneficiados de maneira direta de 10 mil a 40 mil passageiros hora/sentido.
Estes comerciantes devem ser respeitados e suas reivindicações não podem ser ignoradas.
Readequações nos projetos de corredores e em algumas faixas podem ser sim consideradas.
Mas o poder público não pode, por medo de prejudicar sua imagem em redutos eleitorais, deixar de avançar nas políticas de mobilidade urbana.
Em junho de 2013, ouvimos a voz das ruas que pediam transporte melhores. Em abril de 2014, o que grita mais alto é a voz da minoria.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.

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